Porquê é necessário militar?

Depois de tudo conversado e resolvido com a s questões sexuais da minha filha em família, achei eu, que não haveria necessidade de empunhar bandeiras, ou subir em púlpitos para rasgar minha vida e estampar meu orgulho. Afinal, minha filha que fazia parte dessa população, talvez não quisesse ser a imagem da visibilidade lésbica da minha luta… e assim foi por alguns dias.
Comecei a me interessar mais sobre o tema, estudar a diversidade de forma ampla, mesmo sabendo que em determinados casos me cabia respeitar os espaços de fala. Eu sentia necessidade de saber, conhecer e assim ter noção de quão estava limitada na minha falta de conhecimento… o que me tornava uma preconceituosa disfarçada (inconscientemente).
Ter uma filha lésbica, branca, formada, apesar de periférica sem estereótipo algum, numa família que “respeitava sua condição” não me jogava na luta, nem por procuração! A LGBT no caso é ela e nenhum movimento social me daria esse local por representação. Eu sei tudo que dói na minha filha, me dói também, mas só ela vive as delícias e dissabores de ser quem ela é.

Nas minhas buscas encontrei uma rede de apoio para Mães de LGBT’s. Nessa rede buscando justificativa para minha filha ser como era, corri em busca de todas as respostas para minhas recaídas. Eu precisava saber se era normal sentir o que eu sentia, todos os medos e angústias por não saber quando eu poderia falar para as pessoas quem minha filha era e com quem ela se relacionava (como se fosse o curriculum lates dela) como se fosse obrigatório saber tudo ou falar pras pessoas que ela é quem é. Confuso esse momento para qualquer Mãe, Pai… sei lá. Nos julgamos falhos, nos julgamos culpados, nos vemos como escolhidos para sofrer e na realidade tudo é uma questão de muita falta de preparo psicológico e conhecimento da causa.

Lembro das vezes que escutei relatos de Mães que me mostravam que o que eu julgava um problema na minha vida era nada, diante da dor que causamos nos nossos filhos em suas próprias descobertas. Tipo, na hora em que meu filho precisava de abraço, ouvido e acolhimento, eu estava jogando nele todas as minhas dúvidas e causando mais medo e dor nele… isso é uma violência e eu nem percebo que estou sendo violenta.

Porque não sou eu que sinto, porque não é a minha vida que está em risco, porque nunca foi uma escolha, porque toda sociedade vai julgar em vez de apoiar e porque eu nunca vou imaginar o medo que sente o meu filho, porque eu posso até sentir dor por ver meu filho sofrer mais só ele sente na pele a dor real de ser quem é.

Nunca vai existir um manual de como ser mãe de LGBT, mas se você não sabe como ajudar seu filho, não julgar já vai ser a melhor ajuda nesses casos, e se você, mesmo sem entender conseguir não julgar e ainda respeitar… você estará sendo o apoio que ele sempre esperou de você e isso já te coloca no lugar certo dessa luta… do lado do seu filho.
O grupo me ajudou demais, porque me mostrou outras possibilidades de luta, outras possibilidades de família e suas angústias… e me fez sentir pertencente a essa causa para além da realidade da minha família.
Frases prontas de ativismo, repetidas durante uma vida, passaram a não fazer mais sentido e também não me colocavam na luta.
Enxergar a necessidade de aprender mais, para reproduzir com afeto aquilo que me acrescentava de conhecimento e humanidade viraram meta de vida. Ajudar outras mães, ouvindo e acolhendo suas dúvidas e suas dores começou a me fazer a ativista que sou hoje.
Não sou funcionária de nenhuma ong, não sou ligada a nenhum órgão de direitos humanos, mas me sinto útil na necessidade de cuidado com famílias que vivem um luto que precisa ser compreendido. Mediar conflitos que na medida que vão sendo trabalhados mostram que não tem a potência devastadora que costumam parecer.
Acho importante falar que mesmo que minha filha não fosse LGBT e essa situação não tivesse batido a minha porta, entender a causa, ter empatia, saber que podemos sim aprender sobre Gênero e sexualidade e de alguma forma nos posicionar a favor da diversidade diminui a violência, diminui as mortes por agressão de LGBT’s, diminui o silêncio e por consequência diminui os suicídios de jovens LGBT’s.
Eu não precisava ser Mãe de LGBT para defender as famílias LGBT’s eu preciso ser humana e saber que o futuro precisa do ativismo das famílias para que todos vivam com dignidade.
Eu preciso fazer algo antes que meu filho vire estatística… eu preciso sair do armário junto, para que meu filho viva e seja respeitado como cidadão que tem direitos.
Se precisar de ajuda, se você quiser entender para ajudar, se você se preocupa com os altos índices de suicídio da população LGBT ou sabe que podemos ser uteis a alguma família que vive uma situação como essa que eu citei no texto nos procure.
“A cada 20 horas um LGBT morre de forma violenta vítima da LGBTfobia, o que faz do Brasil o campeão mundial de crimes contra as minorias sexuais”.
Pelo levantamento do Grupo Gay da Bahia, no ano de 2017, das 445 mortes de LGBTIs no Brasil, 58 foram suicídios.
(fonte: GGB – Grupo Gay da Bahia)
É preciso mudar esse cenário… eu posso? Eu devo? O que me colocaria no ativismo além de defender a vida de quem eu amo… de quem eu gerei no meu útero ou no meu coração?
Para além da minha família… precisamos mudar a sociedade para defender uma cultura de Paz… para preservar vidas, vidas jovens… vidas LGBT’s ou para defender vidas… apenas VIDAS HUMANAS.
Precisamos militar para defender nossos filhos e nossas famílias. Eu precisei militar para voltar a acreditar, ter esperança no que eu faço me fez acreditar no futuro de uma geração inteira de fillhos LGBT’s de Mães pela Diversidade.

#lutecomoumamae

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