Os Olivais de Saramago

Em determinada entrevista cedida a uma publicação portuguesa, o escritor  José Saramago fez a seguinte declaração sobre como eram as terras no vilarejo de sua infância:

“Onde havia milhares de olivais há, hoje, milhares de hectares de milho. Parece-me ótimo, uma vez que toda a gente precisa de milho, mas eu precisava dos meus olivais. Não digo que me cause dor, mas é uma coisa que me causa um desprazer. Simplesmente, aquela não é a minha terra. De um lado, estão os rios (o Almenda e o Tejo) e a Lezíria, mas, do outro lado, tudo desapareceu ”

Escutar sobre a nostalgia alheia é ser levado pela mão do interlocutor até terras onde habitam emoções irracionais. Ou até mesmo construídas. Aliás, se a nostalgia fosse de fato um edifício, seria de um tipo único, onde a fundação se faria sólida, quase palpável, através da imprecisão de seus firmamentos -sendo o principal deles, a pedra-fundamental, a memória. A dita lua de antigamente, que continha em si a capacidade de iluminar os caminhos das cidadezinhas, sem outras luzes a lhe ofuscar. Os trocados que alegadamente davam para passar uma semana comendo doces, comprando gibis ou indo pegar matinês nos cinemas de bairro e que hoje mal bastam para comprar um Kinder Ovo. A grama do vizinho, como na máxima, era mais verde nesse passado de imaginário coletivo, e hoje, nem grama é mais. É sintética. Tal qual Woody Allen já nos mostrou em “Meia-noite em Paris”, não é de hoje que as pessoas acreditam que determinadas épocas falem mais aos seus corações do que a presente data. As nostálgicas oliveiras evocadas pelas lembranças de Saramago, com suas verdes azeitonas (já que tudo era mais verde, afinal) ironicamente deram lugar a cultivos mais prolíferos na tarefa de alimentar seu povo, mas ainda atendem a uma demanda especial de fome espiritual do homem. Nunca antes se olhou tanto para trás, seja no cinema, televisão ou livros. As pessoas andam agarrando-se ardorosamente aos seus “olivais” como os mais ferrenhos ativistas em prol das florestas. Diante da fome social em todas as suas manifestações: inconformidades cotidianas, envelhecer (o que para alguns manifesta-se na forma de uma voraz busca por juventude) e a mais curiosa, a saudade do não vivenciado. Por tudo isso a “cultura da nostalgia” faz da azeitona-fruto, usufruto, a fim de alimentar quem se apega ao passado, de onde se via ainda tão distante a mera ideia de um dia, virar caroço.

Cito novamente Woody Allen, com sua reflexão ao final de “Annie Hall” (no Brasil, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”) onde, em uma piada, um rapaz procura um analista para confidenciar que seu irmão acredita ser uma galinha. Ao qual o profissional lhe indaga: “e por que não o interna?” O rapaz responde: “porque preciso dos ovos, doutor”. E no aplacar dessa fome inata, a geração netflix se farta com Stranger Things, Jogador Nº1 ou incontáveis remakes dos filmes preferidos de sua infância. Assim como Saramago precisava de seus olivais.

 

Pedro Malta